O espelho que eu não esperava encontrar
A pesquisa que começou sobre uma criança e terminou num espelho: linha após linha, eu ia me sublinhando.

Eu te contei ontem da desconfiança — daquele incômodo miúdo que me levou, numa madrugada qualquer, a abrir o celular e começar a pesquisar. Eu sentei pra entender uma criança. O que eu não esperava era o espelho.
Linha após linha, eu ia me sublinhando
Acontece uma coisa estranha quando você vai fundo em entender como certas mentes funcionam: você começa a se reconhecer. Eu lia sobre os jeitos de uma cabeça prestar — e de não prestar — atenção. Sobre mentes que organizam o mundo por um sistema próprio, que pra fora parece desorganização. Sobre o cansaço de quem passa o dia inteiro se esforçando pra parecer que tá tudo sob controle.
E eu ia marcando. Não nela. Em mim.
"Isso sou eu." "Isso sempre fui eu." "Meu Deus, isso explica a minha vida inteira."
Eu tinha aberto a busca pra entender outra pessoa e fui me encontrando no meio do texto — como quem procura uma palavra no dicionário e tropeça no próprio nome.
O que eu sempre chamei de defeito tinha outro nome
Foi assustador na medida exata em que foi libertador. Porque cada coisa que eu li ali era uma coisa pela qual eu tinha me cobrado a vida toda.
A pilha de projetos começados e não terminados. O esquecimento que eu jurava ser desleixo. A dificuldade absurda com o tédio. O tanto de energia que eu gastava pra fazer no susto o que parecia que todo mundo fazia no automático. A sensação permanente de estar correndo atrás de uma versão minha que dava conta de tudo com facilidade — e que nunca chegava.
Eu sempre chamei isso de preguiça. De falta de organização. De "você é inteligente, mas não se aplica". Ali, na tela do celular, aquilo tudo deixava de ser falha de caráter e virava descrição. Tinha nome. E não era o nome que me ensinaram.
Quando o chão se mexe um pouco
Tem um instante, nesse processo, em que o chão se mexe. Você entra procurando entender quem você ama e sai tendo que reencontrar quem você é. É vertiginoso. Dá vontade de fechar a aba e fingir que não viu.
Eu não fechei. Fiquei ali, lendo de madrugada, com o coração batendo de um jeito esquisito — parte medo, parte um alívio que eu ainda não sabia nomear. Porque, pela primeira vez, fazia sentido. A história toda fazia sentido.
Eu tinha ido procurar respostas sobre uma criança. E o primeiro nome que caiu — o primeiro de verdade — foi o meu.
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